Combinado
O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas, as assinaturas se tornam fontes, sobretudo, pelo poder simbólico entre os assinantes.

– Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada.

O ensino “combinado” da leitura e da escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que na prática não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados, como o “escravo pardo de nome Vicente”, que era “oficial de alfaiate, sabe ler e escrever”.

Evidência ainda mais segura do letramento escravo é a presença de negros nas escolas do século 19, em Minas Gerais, numa proporção muito superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos Negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do período é preciso ter em mente uma escola negra.

O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais negras, somando-se os 130 mil escravos locais.
– No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao nosso atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio – diz Fonseca.

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