Marcilene Lena Garcia de Souza*

Muitos dos “anti-cotas”, querem fazer crer que os “anti-racistas pró-cotas” estão incitando o ódio racial entre brancos e negros no Brasil quando estes reivindicam ações afirmativas focalizadas para negros. É óbvio que não se pode mais falar na existência de raças humanas do ponto de vista biológico. Raças não existem! Mas o racismo existe! E sua magnitude tem provocado muitas vítimas no país. Milhares de assassinatos, sobretudo em relação aos jovens negros, humilhações, exclusões e sofrimentos cujo alvo preferencial tem sido ao longo da história a população negra (preta e parda). E isso não é possível negar! Basta analisar os indicadores sociais na Educação, Mercado de Trabalho, Saúde, Segurança, Meios de Comunicação, Moradia, etc (IBGE, 2005, PNUD, 2006, DIEESE, 2005, IPEA, 2001, 2006).  A idéia de Raça  utilizada por nós “anti-racistas pró-cotas”  sempre teve um caráter Social e não Biológico. 

Contudo é pertinente contrapor as análises sobre a questão racial numa perspectiva somente da pobreza, porque corrobora para impedir a observação do fenômeno e das multifaces da perversidade das características do racismo no Brasil que é de marca. Um jovem branco, que esteja excluído socialmente, à procura de emprego, pode alegar má sorte na vida, pouca escolaridade, exclusão social, mas, jamais poderá alegar que não foi contratado no emprego porque é branco. Segundo o IPEA, 2001 a pobreza traz muitos obstáculos, mas, garante aos “brancos pobres”, três vezes mais chances de não continuar pobre quando comparado aos negros em mesma situação de pobreza.

O IPEA, 2007, analisando a média de escolaridade dos jovens no Brasil entre 15 e 24 anos, afirma que levaria 67 anos para que brancos e negros tivessem alcançado os mesmos níveis de igualdade educacional. A probabilidade de um branco chegar à universidade é de 19% para 6,6% de um negro; Um negro recebe 53% de um salário de um branco. Ainda segundo o IPEA, analisando os dados de 1995 a 2005 levaria 65 anos para o Brasil eliminar a pobreza entre os negros e 52 anos para os negros alcançarem o mesmo nível de pobreza que tem os brancos no Brasil hoje. Como é possível ainda alguém imaginar que no Brasil a “pobreza é tudo igual?”

O debate, sobretudo nos meios de comunicação tem trabalhado com a idéia de polarização entre os que se dizem contrários às cotas para negros e aqueles que são favoráveis. No entanto, é preciso lembrar que nós não estamos numa torcida de futebol em que os indivíduos opinam sobre ser favorável ou não a mudança da cor da camisa do time. Nós “anti-racistas” estamos nos referindo aos princípios fundamentais da nossa sociedade: democracia, liberdade, igualdade e interação. Discute-se a necessidade da democratização do poder e a contraposição as formas de hierarquização das diferenças étnico-raciais. 

O que o Movimento Social Negro reivindica juntamente com os seus aliados anti-racistas é, justamente o direito à igualdade de oportunidade para os indivíduos negros considerando os processos históricos de escravidão e a situação de vulnerabilidade e desvantagem nos vários espaços sociais, tendo como componente central na análise o impacto  do preconceito e da discriminação racial que estes têm sofrido ao longo de suas vidas em função do seu pertencimento racial negro. A tal mestiçagem no Brasil não conseguiu produzir rodízios nos espaços de poder. Os que lá estão são majoritariamente brancos. Como é o caso das nossas Universidades, do Congresso Nacional, da TV e dos cargos de poder de nossas maiores empresas, etc.

Os debates não podem ser reduzidos de forma simplista entre aqueles que são a favor ou contra as cotas.  A pergunta é outra: “é justo ou não as cotas para negros?” Estamos falando de Justiça. É justo que o Estado Brasileiro crie programas específicos de ações afirmativas para negros depois de uma política institucionalizada de Escravidão por mais de 350 anos? Escravidão esta que produziu riqueza para o país à custa de tortura e maus tratos. Ainda consideramos mais 120 anos de uma abolição falsa, onde se verifica o tratamento discriminatório nos vários segmentos sociais, mas, sobretudo, quando se observa as formas de implementar e regular as políticas públicas universalistas que provocam mais impactos sociais positivos aos pobres brancos quando comparado aos negros. É justo que o país crie programas focalizados para inclusão de negros nos vários espaços sociais?  Que políticas efetivamente o país construiu para inserir a população negra na sua história? Porque as políticas universalistas (para todos) nunca alcançaram sucesso entre os negros?
*Marcilene Lena Garcia de Souza. É Diretora licenciada do IPAD BRASIL, Socióloga, doutoranda em Sociologia pela UNESP.

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