Neste mês de maio a abolição da escravidão no Brasil completa 120 anos, porém, ainda são grandes os problemas como o preconceito, segregação, pobreza, e as dificuldades cotidianas com que sofre a população descendente dos escravos libertos em 1988 pela Lei Áurea. Para o professor Andrelino Campos, da UERJ, autor do livro “Do quilombo à favela – A produção do ‘espaço criminalizado'”, muito ainda deve ser feito para combater a exclusão da população afro-descendente na sociedade brasileira.

 

O professor explica que o preconceito e a segregação estão interligados, mas têm características diferentes. Enquanto o primeiro faz parte de um sistema simbólico, de um imaginário, o segundo é o meio pelo qual essas idéias se materializam. Ele ressalta como é complexo o problema da segregação no Brasil, pois negros e brancos estão juntos mas ao mesmo tempo separados social e economicamente, como água e óleo.

 

Segundo Andrelino, as dificuldades encontradas pelo negro hoje são decorrentes tanto do preconceito criado no tempo da escravidão, quanto da segregação causada por este preconceito, agravados pela ausência de políticas públicas visando compensar os anos de exploração dos negros. Ele explica que o processo de abolição brasileiro têm um grande peso no quadro atual de exclusão pois nele os escravos foram libertos, mas não tiveram nenhum tipo de apoio por parte do governo, o que fez com que  muitos passassem a viver na pobreza extrema.

 

Dados do IBGE mostram que os descendentes de escravos são a grande maioria dos que se encontram em situação de maior vulnerabilidade social, devido ao precário acesso à educação, saúde, mercado de trabalho etc. “Os pretos foram os últimos a ingressarem no sistema de educação, possibilitando um atraso considerável em relação ao grupo hegemônico da sociedade. Então, não tenhamos dúvidas, para a redução da pobreza serão necessárias muitas ações de compensação social.” – alerta o professor.

 

Um dos aspectos mais visíveis da exclusão e da segregação são as favelas do Rio, cuja população é, em sua maioria, composta por descendentes de escravos. Para Andrelino, a favela é um espaço excluído, assim como eram os quilombos, vítima de uma forte repressão do estado, que trata as comunidades como “espaços criminalizados” onde todos são suspeitos até que se prove o contrário.

 

“A segregação sócio-espacial é parte visível do estigma da discriminação e do preconceito contra a população das favelas que, em sua maioria, é constituída de pretos e pardos. Desta maneira, construímos um triplo preconceito, o de “cor”, o “espacial” e de “pobreza”. Continua dura a vida de favelado, como era muito dura a vida de quilombola.” – afirma o professor.

 

Para Andrelino Campos, a única solução para o problema da segregação é a ampliação da acessibilidade através de investimentos contínuos que favoreçam a população mais pobre. Segundo ele, as favelas não são consideradas áreas prioritárias para investimentos, o que perpetua o quadro de segregação atual. O professor critica ainda programas como o favela-bairro e o PAC por serem muito pontuais e descontínuos, portanto não provocando grandes mudanças na acessibilidade da população mais pobre à meios para melhorar a vida.

 

“Não podemos esperar outros 120 anos para construir o sistema que contemple a igualdade entre todos, aguardar o devir. Ele só será melhor se no “agora” estiverem sendo tomadas ações que tenham como direção a melhoria geral da sociedade.”- conclui o professor.

 

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