Luana Clara – Felipe Trotta, Helena Theodoro, Monarco e o mediador Jorge Carneiro, compuseram a segunda mesa no primeiro dia seminário Samba, Patrimônio Cultural do Brasil.

 

Samba e construção da nacionalidade – Felipe Trotta delineou como o samba ajudou a criar um sentimento de identificação dos cidadãos com o país. “É na cultura que está o elo forte com a nação. O hino, a bandeira e feriados são símbolos nacionais, mas, também não fazem plenamente, que nos sintamos parte da nação. A narrativa de nação é cotidiana, e é aí que o samba entra”, explica.

 

Com isso, a música carioca toma status de nacional, começa a tocar nas rádios e ser escutada no Brasil inteiro. “Um forrozeiro pernambucano importante, em entrevista, disse que suas inspirações foram Cartola e outros sambistas, que escutava pela rádio”, exemplifica o mestre em musicologia, que afirma que isto só foi possível através de um processo de mercantilização.

 

Felipe também explicou que as matizes do samba (partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo) surgiram do improviso e foram construídas para o pólo comunitário, artesanal e amador. Além disso, apontou a diferença entre os três. No partido-alto, só se tem a primeira parte, e a segunda é criada momento da performance (na roda). Neste estilo, o importante é o verso que será criado, por isso, a melodia é base, já conhecida. Já o samba de terreiro fala onde está sendo composto, no antigo terreiro das escolas. “É feito com autoria, ou seja, maior grau de fechamento, liberdade autoral, melódica”, afirma Felipe, que vê neste processo o início da transformação do ritmo em um produto. E o samba-enredo aponta para o desfile, mas, segundo o musicólogo, não  começou com esta finalidade, pois, nos anos 50 e 60 o refrão não existia ou era repetido poucas vezes.   

 

Samba, religião e identidade –Helena Theodoro falou sobre hábitos ligados à música que tem haver com a religiosidade africana. “Na praça XI, Saúde, Gamboa se formou a Pequena África, que preservava as manifestações culturais de seus ancestrais”, diz a  doutora em Filosofia, sobre a região onde nasceu o samba carioca.

 

Ela também explica que essa ligação com os antepassados, dos familiares de pessoas ilustres no meio, é outra característica da crença afro, e dá exemplos: “Os camarotes tem nomes de ancestrais, isso é ligado à religiosidade”.

 

Outra evidência é o amor à vida, visto nos compositores. “O grande pagamento para o sambista é ouvir o povo cantando seu samba, e não o dinheiro na conta”, afirma Helena.

 

De acordo com a filósofa, o desleixo das autoridades com os negros, no início do século XX, contribuiu para a disseminação de sua cultura: “O descaso do governo, que queria transformar o Brasil em uma França, fez com que o negro, deixado de lado, vivesse sua cultura: tradição oral, rezadeiras e remédios de ervas e chá”.

 

Ser sambista, “um modo de viver” – De forma bem humorado, contou as loucuras que fez por seu amor à música: “Eu só estudei até a terceira série, e em parte, foi por culpa do samba, porque eu matava aula por causa do samba. Eu fui demitido da ABI porque me pegaram sambando junto com o Pretinho, na visita do presidente Truman (dos Estados Unidos)”.

 

E também lembrou de amigos como Alcides, o malandro histórico da Portela, marido de Dona Guiomar, que vivia se queixando que os dois só faziam música falando mal das mulheres. E seu parceiro, para acalmá-la, compôs “Vivo Isolado do Mundo”.

 

Já sobre a música “Diz que fui por aí”, o sambista se diz chateado pelo fato de alguns veículos de comunicação, creditá-la apenas de Zé Keti, o que, segundo Monarco, não foi verdade, pois foi Hortêncio Rocha que a escreveu, e Zé Keti lapidou e mostrou para Nara Leão, que gostou e gravou. 

 

Além disso, o compositor portelense contou histórias de Cartola, Portela e o preconceito que o samba sofreu no início: “(a discriminação) Era a tal ponto, que se uma pessoa fosse baleada nas redondezas, o presidente da escola intimado para depor”, declara.

 

Encerramento – Uma belíssima apresentação solo, de Zeca da Cuíca, fechou as atividades do dia. Na parte externa do Sesc, o projeto Primeiro Passo, realizou uma apresentação sobre a evolução do samba, com crianças, adolescentes e jovens.

Foto: Zezzinho Andrady 

Anúncios