Fonte: Revista Língua Portuguesa
Alex Sander Alcântara
Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos. Cai à bala a Revolta dos Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos próprios revoltosos.
“Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes.”
A frase, de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, ilumina um fenômeno pouquíssimo difundido: o da familiaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá).
Por tempo demais a historiografia tradicional difundiu a idéia de que os negros trazidos ao Brasil até o século 19 não sabiam ler nem escrever. Aos poucos, esse mito, que alimentou o preconceito secular contra a inteligência negra, perde espaço na recomposição da escravidão, cuja Lei Áurea completou 120 anos.
Pesquisas em história da educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos 17 e 18, os negros foram decisivos na difusão do português no Brasil.
Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, reforça a idéia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam se utilizar do escrito numa época em que eram proibidos de freqüentar escolas. A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda. Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade musical, de leitura ou de escrita.
- Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de “letramento”, termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita – diz Christianni.
29 Setembro, 2008 at 12:34 am
É bem verdade tudo isto que a matéria aponta, pois agora com o aprofundamento dos estudos nos séculos 18 e 19 a respeito dos negros tem-se ampliado e muito. Mas, não podemos esquecer que quando falamos em negros (no século 19 ou 18), não estamos falando de raça, mas de cores. Já que o pardo desde esta época foi considerado uma categoria a parte dos escravos (denominados pretos), e os índios – negros da terra.
17 Janeiro, 2009 at 9:15 am
A obra de Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala) ajuda a compreender e enfatizar essa descoberta, visto que os elementos apresentados na obra e a concretização dessa pesquisa revelam os traços apontados pelo autor em seu livro de 1933:
- Sistema de ensino da cultura maometana nas senzalas;
- Conhecimento de leitura e escrita não compreendidos pelos portugueses (que em alguns casos nem sequer sabiam ler ou escrever);
- Comunicação entre negros de diferentes lugares da África através de um dialeto criado para facilitar a comunicação;
São muitos os fatores apontados por Freyre, que acredito, contribuirão indubitavelmente enquanto fonte de pesquisa para a reconstituição da História do Brasil, o que propiciará a interpretação dos fatos, permitindo eliminar a visão de um colonizador com instinto de poder e controle, na tentativa de submeter à força aqueles a quem considerava como posse.